FELIPE LIMA
Jornalista, é fundador do Grupo Leopoldo de Comunicação
Existe algo de curioso nos filmes, principalmente os mais antigos — anos 1970, 1980 —, do gênero de suspense, ação. Poderia citar diversos títulos, mas vou usar “Night moves” (1975) como exemplo. Gene Hackman fazendo aquilo que sabe de melhor: seu velho papel de sempre. Ele, detetive, está atrás de uma moça que sumiu. Até aí, jogo jogado, tudo normal. O meu espanto nasce da investigação em si, de como ele vai chegando nas pessoas.
Começa alguém dizendo que ela foi vista com Quentin, por exemplo. Corta a cena, surge ele na oficina do Quentin, querendo saber da menina que teria sido avistada com ele. Sempre aquele papo furado, o fulano meio cínico diz que não sabe de nada, até que leva umas bofetadas do investigador e revela que a fulana estaria com um tal de Dustin, Carl Dustin. Informação prontamente aceita. Cena seguinte, lá está Gene Hackman em um set de filmagens aguardando a chegada do nosso bom Dustin. Opa! Pera lá! Quem é Carl Dustin? Como ele sabia onde acha-lo? Disso, nunca saberemos, mas é como se todas essas informações fossem dadas e aceitas milagrosamente.
Claro que entendo a questão narrativa e que não daria pé se, a cada personagem, ele tivesse que sacar seu caderninho e ficar anotando endereço, telefone, locais prováveis, horários e outras referências. Quer dizer, não daria até a página meio, porque isso é essencial para a verossimilhança. Talvez não precise do gesto a cada novo nome, mas de vez em quando seria absolutamente salutar para qualquer bom enredo.
E isso não é algo restrito ao “Night Moves”, não. É algo recorrente. Tal qual as contas em bares, cafés e pubs, que, além de nada ter sido consumido, as pessoas sempre saem exasperadamente e jogam sobre a mesa umas notas amassadas e moedas que estavam no bolso. E sempre dá certo. Nem precisa pedir a conta, muito mentos o troco. Basta jogar as notinhas e moedas e partir. Então, ficamos assim. No alto dos anos pré-telefonia móvel, as pessoas eram mais facilmente localizadas do que eu poderia fazê-lo hoje em dia. Viva o cinema americano!



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